Nha Balila é uma figura do povo


Conhecida pela sua dinâmica, marcada por forte presença nos meios da comunicação social, a invisual Isidora Semedo Correia, popularmente conhecida por Nha Balila, tem inscrito o seu nome na nossa praça como uma figura de destaque, das mais populares da cidade da Praia. Aos 78 anos, Nha Balila conserva a sua “juventude”, entenda-se veterania, malgrado toda fadiga e sacrifícios vividos nas roças de São Tomé e Príncipe nos anos 50 e 60 do século passado.

Nascida na Serra da Malagueta (interior de Santiago), vizinhança de Principal, terra da expoente do batuco Nha Nácia Gomi, Isidora Correia Semedo não pôde fugir das influências do batuco, pelo que bem cedo seguiu as pisadas dos familiares.

Ainda criança, despertou o interesse pela prática do “finaçon e tchabeta” e, aos dez anos, revelou a sua paixão pelo batuque, ainda que a prática dessa cultura tradicional cabo-verdiana sofresse muita pressão por parte Igreja da era colonial.

A independência nacional teve um papel decisivo na continuidade de Nha Balila na arte de brincar o batuco. Foi nessa altura que formou o seu agrupamento denominado “Bali Pena (Valeu a pena), agremiação que sempre marcava presença nas tradicionais festas de despedidas de solteiros, baptizados, Páscoa e casamentos, e em diversos pontos da ilha de Santiago.

Após alguns sucessos, Bali Pena viria a terminar a sua carreira em 1991, alegadamente motivados por conflitos partidários entre os seus elementos. Razão que leva Nha Balila, ainda hoje, apelar para que a cultura esteja equidistante de qualquer força política.

Destemida e determinada, formou há cerca de dez anos um novo grupo de batuque, denominado “Artistas Portadores de Deficiência.

Bazófia que, graças à sua participação em batuques, já actuou perante multidões. Recorda, com muita emoção, a sua participação numa das edições do Festival do Gambôa, ao lado do seu grande ídolo, Norberto Tavares.

Balila define-se como uma invisual que nunca se sente isolada, já que tem marcado, de forma diversa, a sua presença na sociedade cabo-verdiana.

Retém na memória bem viva os nomes de muitos artistas cabo-verdianos e diz, com todo o orgulho, que o seu maior ídolo de sempre continua a ser o célebre compositor e mentor conjunto do Bulimundo, Carlos Alberto Martins “Catchás”, considerado o grande impulsionador do funaná orquestrado.

Mostra ainda a sua admiração pelo vocalista Zeca de Nha Reinalda, enquanto intérprete do funaná, Ildo Lobo e Cesária Évora, na qualidade de intérpretes da morna e Norberto Tavares, como o grande defensor da cultura cabo-verdiana.

Da nova geração revela uma grande paixão pelo show-man cabo-verdiano radicado na Holanda, Kino Cabral, por Princezito, embora, garanta, aprecie todos os músicos e artistas da nossa terra.

Autora de dezenas de composições, das quais de destacam “Capina Padja”, “Dentro di alguém qui é alguém”, “Minino Nobu na mom”, “Minininhas adolescentes”, Nha Balila diz que sente mais inspirada à noite, altura que aproveita para dar corpo às suas composições musicais.

Mas nem só de rosas viveu esta figura de povo nessa sua caminhada. Mãe de duas filhas e avó de muitos netos, Nha Balila teve que deixar, como muitos cabo-verdianos, o torrão natal no período colonial, mais precisamente nos anos 50 e 60, época que trabalhou como contratada nas roças de São Tomé e Príncipe.

Em 1954, pisou pela primeira vez aquelas ilhas do Equador. Anos depois regressou à casa, mas voltaria a emigrar em 63 e 66, já que, conforme confessa, “o país não tinha grandes condições económicas para alimentar os seus filhos, dadas as sucessivas calamidades, motivadas pela falta da chuva”.

Em São Tomé e Príncipe, trabalhou em quase todos os serviços agrícolas. Capinou palha nas Roças de Vaz Prazeres (freguesia de Santo Amaro), em Monte Café e na Independência Gratidão.

Recorda que a vida por estas paragens era bem dura, já que fazia trabalhos de campo. “Capinei, colhi cacau, carreguei lenhas às costas, lavei azeitonas e no final, troquei trabalhos de mato para os ofícios de senzalas”.

Lamenta que nas roças passou por sacrifícios, alegando que chegou mesmo a ser “chicoteada” e “esbofeteada pelos brancos” de então.

Depois de todas estas amarguras, foi reencaminhada para a sua terra natal pelo patrão de Monte Café, de bolso vazio, mas as roças de São Tomé e Príncipe ficam indubitavelmente ligada a vida de Nha Balila, pois foi aí que ela perdeu a vista.

“A minha cegueira surgiu na sequência de um acidente de trabalho em São Tomé e Príncipe. Enquanto capinava, o líquido de uma árvore, que se chama “malgós” – (amargo) acertou-me no olho direito e rapidamente propagou-se pelo olho esquerdo. Na sequência, perdi a minha visão. Era a minha terceira aventura pelas terras são-tomenses”, lamenta.

Sem papas na língua, queixa-se que, ainda hoje, continua a lutar pelos seus direitos, sem que haja resultados concretos.

Mulher com voz activa nas diversas estações das rádios espalhadas por estas ilhas atlânticas, Nha Balila continua a “batalhar para a consagração dos direitos da mulher”, pois não se conforma que elas continuem a serem violadas em pleno século XXI.

publicado por festivalbatuco às 16:52 | link do post